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Segunda, 06 de Fevereiro de 2006
O ESCANDALO DAS CHARGES ALMIRANTICAS

Flagrante do momento em que minha embarcacao
jogou um Lear Jet contra a redacao do jornal que publicou
charges com a reproducao de minha imagem. O atentado
fez mais de duas mil vitimas. Eu so nao sabia que cabia
tanta gente assim num Lear Jet.
Amados leitores, a tolerancia e como o Universo conhecido e meu cheque especial: vive sempre no limite. Dito isso, venho a publico dar a minha versao sobre um fato recente que me tirou do serio e fez com que eu partisse para uma retaliacao violenta e exemplar. Porque voce sabe que duas coisas sao sagradas: meu direito de nao aceitar reproducoes de minha imagem em charges de jornais e meu outro direito de ao menos ser ressarcido com 50% do valor das vendas em banca.
Ocorre que o diario “Gazeta de Cururupuema do Leste”, de Rondonia, expos meu nome ao ridiculo perante o mundo inteiro, ao publicar charges onde a sacrossanta dignidade que sempre pautou minha conduta e maculada de forma leviana e irreversivel (ver os desenhos abaixo). Nao deu outra: a embarcacao promoveu em resposta um atentado ao predio-sede do jornal (ver foto acima).
Fica o recado as demais publicacoes: quem quiser tripudiar de minha pessoa com charge mal desenhada a partir de agora que pense duas vezes. Digo, pense no valor do cache, multiplique-o duas vezes e me mande logo a OP, caramba.
Confira agora uma a uma as infamias graficas e revolte-se comigo, amigo leitor.

Aqui a ignominiosa charge faz chiste de quando eu passei pela vacinacao contra a Sifilis do Mediterraneo. Na legenda eu alerto o enfermeiro: “Nao mete a agulha no meio de minha tatuagem de mae que eu meto no meio da sua!”

A charge, claramente tendenciosa, zomba da firmeza de minhas posicoes ideologicas, quando, ao enfrentar o Leviata do socialismo na America Latina, aponto para meu proprio traseiro e digo: “Ah, Evo Morales querendo estatizar refinarias brasileiras? E na bundinha aqui, nao vai nada?”

Ate onde nao se chega no intuito de promover a discordia entre os povos. A charge mostra a mim na entrada de minha embarcacao, fazendo troca de um marujo lusitano: “Certo, voce pega umas baleias com essa rede ai e depois pesca tres borboletas pro jantar, certo, o pa?”
A charge que mais mexeu com meus brios de homem do mar. E cruel e concisa. Mostra este que vos escreve em tenra idade, descobrindo empiricamente que, ja que o negocio e ter um brinquedinho que navega sem ir a lugar nenhum, por que entao nao ser blogueiro?

E finalmente, esta charge fazendo pouco de minha virilidade de jovem matalote. Em minha epoca de grumete, tenho uma conversa com Millicent, mae do meu piloto Stubb, e ouco dela: “Sim, voce bebeu todas ontem e nao se lembra de nada. Sim, fizemos uma suruba com o Queequeg. Sim, adivinhe por que voce nao consegue se sentar?”
Postado por Nelson Moraes às 10:47 | Proclamacoes Bombasticas
Quarta, 01 de Fevereiro de 2006
ENTREVISTAS ALMIRANTICAS

Sindrome do Panico: “Minha agenda
anda lotadissima, mas eu iria esnobar
um convite de la Bundchen?”
Personal disease mais disputada do mundo fashion e artistico, a agitadora cultural Sindrome do Panico (nee Crise de Ansiedade) acaba de fechar um acordo para assessorar a top Gisele Bundchen. Segundo nota distribuida a imprensa, Gisele, a partir de agora, devido ao acordo, deixara de frequentar aglomeracoes ・o que devera triplicar seu cache. A seguir os trechos mais surtantes da entrevista que a Sindrome concedeu a este blog.
Ao Mirante, Nelson! ・Voce ha algum tempo era habituee apenas do circuito alternativo, mas hoje pode ser vista assessorando diversas celebridades do establishment. Como foi essa transicao? ?
Sindrome do Panico ・Olha, Almirante, nao escondo que minha origem e das mais humildes. No comeco eu nao usufruia deste status todo: tive que suportar apelidinhos pejorativos, como Paura, Ziquizira, essas coisas. Entao passei a investir mais em imagem, contratei assessoria de imprensa, resolvi nao ter medo de ser feliz ・e a partir da decada de 90 tornei-me referencia obrigatoria na midia e na moda. Mas devo tudo as minhas precursoras, a Depressao e a Crise Existencial. Eu apenas soube seguir os passos delas. So que trabalhei mais o marketing. >m
Ao Mirante, Nelson! ・Entao responda, olhando nos meus olhos: pra Sindrome do Panico, qual o melhor remedio? <
Sindrome do Panico ・Ah, dear ・e rir, e muito. Porque hoje a fofoca corre solta. Um dia voce le que a Brooke Shields me teve. No outro, que eu estou com a Lindsay Lohan, e dois dias depois com a Britney Spears. Se fosse tudo verdade eu seria rica e nao precisaria dar entrevistas a blogs deste naipe. Entao a gente tem mesmo e que rir disso tudo. Eu te digo: na verdade vida de Sindrome e a maior correria. c
Ao Mirante, Nelson! ・Como foi fechar com a Gisele Bundchen?
Sindrome do Panico ・Olha, eu nao poderia dizer nao. Depois da Gisele ter assinado contratos de exclusividade com marcas como Nivea, Grendene, C&A e Vivo, a proposta me soou irrecusavel. Seria suicidio eu nao topar. Ops ・suicidio e eu na mesma frase nao pega bem. Corta essa parte, viu? (risos) is
Ao Mirante, Nelson! ・E que conselho voce daria as personal diseases que estao comecando? <
Sindrome do Panico ・Ah, acreditem e chegarao la. Nao deem ouvidos a essas ondas de fofoca medica dizendo que estamos com os dias contados. Isso e preconceito. Pensem grande, passem por cima dessa sirigaita arrivista que e a serotonina e tenham a certeza: sempre que existirem celebridades avidas por ostentar uma excentricidade muderna e cool havera espaco pra nos. o
Ao Mirante, Nelson! ・(dando uma geral no appeal gotico da moca) Pois saiba que aqui na embarcacao voce tem espaco garantido, viu? u
Sindrome do Panico ・(risos) Agradeco, dear, mas deste barco de terceira so quero uma coisa: saber a que horas a gente chega a Ilha de Caras, pra eu pegar uma cor. Sindrome bronzeada hoje e mais in, entende?
Postado porNelson Moraes às14:58 | Classicos
Quinta, 26 de Janeiro de 2006
NAO RIA DE UM HUMORISTA
Descasque um humorista e o que voce encontra? Nao, nao, resista: refreie o impulso de dizer que vai achar um sujeito timido, deprimido ate, que utiliza o humor como mecanismo de defesa. Caramba, eu esperava mais de voce. Humorista e um estabanadissimo furacao tourettiano, um Pantagruel esterilizante elevado a enesima potencia de maldade irresponsavel, mas cujo superego, em nome de uma minima credibilidade, faz com que ele tenha essa fachada contida: apenas um humorista. E voce cai feito um patinho.
Vamos de Tina Fey. Voce fica chocado ao ver a moca vertendo ininterruptamente aquele veneninho, la na bancada do Weekend Update? Acorde. Estamos falando e de Lillith, a demonia sanguinaria e incestuosa que cospe dos olhos acres todo o fogo do Geena, e cujas garras amarelecidas clamam por penetrar no peito da raca humana para so se contentarem se na saida trouxerem na ponta da ungula nosso fumegante coracao. Mas para aparecer bem na teve Lillith toma Lexotan com suco de maracuja ・e entao se mostra sob a forma de uma tao somente venenosa redatora-em-chefe do SNL. Tem mais, claro. O infanticida e antropofago Jonathan Swift sugeriu, sob a influencia de Sata, incluir a carne de criancas irlandesas pobres no cardapio apenas como disfarce dialetico para fingir falar serio por meio de um pitoresco wit que no fundo procurava disseminar a ideia de… incluir mesmo a carne de criancas irlandesas pobres no cardapio, oras. Mas ai Swift se travestiu de caustico cronista de costumes setecentista e ninguem percebeu. Tem mais. Aristofanes, na verdade a encarnacao do sulfuroso ressentimento dos Titas destituidos, sacaneava Socrates em suas comedias so porque, no fundo, tramava a morte do filosofo e por extensao do pensamento humano. Ninguem ficou sabendo, mas no dia em que Socrates tomou a cicuta, Aristofanes, numa caverna perto de Tebas, deixou vir a tona sua deformada persona de seis mil olhos incandescentes, dando pulinhos e celebrando o exterminio da filosofia. Ai alguem entrou e ele rapidamente se recompos, voltando ao disfarce de mero comediografo mordaz. Pronto. d
Em verdade, em verdade vos digo ・a hegemonia do mal no Ocidente se dara pela sub-repticia infiltracao da ironia. Cuidado. Nao demonstre empatia pelos humoristas, nao se perca em psicologismos tentando relativizar sua iconoclastia e conferindo a eles um perfil tridimensional. A Inquisicao estava certissima em fazer, literalmente, o que eu sugeri no sentido figurado ali no comeco do texto: descasca-los. O contraponto do sarcasmo dos humoristas nao e seu humanismo intrinseco, e sim mais e mais sarcasmo, emerso do eterno negrume da perversidade genocida porem sob o candido veu da, veja voce, ironia.
Nao ria dos humoristas. Eles nao sao como voce e eu. Eles merecem o desprezo e o oprobrio, e sempre que numa entrevista ao E! Entertainment um deles insinuar que debaixo de todo aquele fel existe uma crianca carente, faca o sinal da cruz e jogue um tijolo na televisao. E a tatica deles.
Pior do que essa desfacatez de humorista seria a desfacatez de humorista blogueiro, se ela existisse.
Postado por Nelson Moraes às 17:18 | Ensaios
Quinta, 19 de Janeiro de 2006
TATUAGEM, CRISANTEMOS E BECKETT

Tattoo caminha dentro?
Despindo-me e analisando minhas tatuagens de velho lobo do mar, chego a conclusao de que as quatrocentas garatujas espalhadas por meu combalido corpo nao me fazem diferente de muito vivente metido a servir de exemplo por ai. Tenho um rei na barriga, uma cascavel no peito, o mundo na palma da mao, uma boca no cotovelo e um tolete de bosta na cabeca. Mas ao menos trago um ramo de crisantemos azuis tatuados na alma, devaneador incuravel que sou. Tao devaneador que me esqueci de que tirei a roupa nao para ficar tecendo analogia entre minhas tatuagens e os atributos de certas pessoas, mas para mostrar a Millicent que a tattoo “Beckett” no meu pau, em vez de aludir ao teatro contemporaneo, consiste na verdade na abreviacao de “Benemerito Patrocinador do Gremio Recreativo, Esportivo e Cultural do Porto de Nantuckett”. Entretanto, com a altissima carga de estresse advinda das ultimas batalhas navais, periga e eu acabar deixando Millicent esperando Godot.
Postado por Nelson Moraes às 16:06 | Croniquetas
Sexta, 13 de Janeiro de 2006
RITUAL DE INORCISMO
La em cima, no quarto, temos o padre com a garota e as voltas com a entidade infernal. La embaixo, os pais da menina, ouvindo os palavroes vindos do quarto, regurgitados de dez em dez segundos pela voz tonitruante, cavernosa e ja rouca do padre que… Ha. Bem. Sim, do padre. Voltemos no tempo que eu explico.
Os pais nao sabiam o que fazer. Ja tinham tentado de tudo com a filha de 19 anos: namorado, psiquiatra, viagem a Holanda, Camus, choque na espinha, Lou Reed, tudo. Nao adiantava. A filha passava o dia no quarto (de porta aberta, fazendo questao de respeitar a prerrogativa da autoridade parental), vestida com camisolas fechadas do pescoco ao tornozelo (da grife Victorian Secret) e aprendendo no headphone declinacoes do latim para orar no original. As vezes entrava na internet para atualizar seu blog (onde utilizava o nick “Wilhelmina O’Reilly”), e numa oportunidade chegou a cogitar abrir mao da camisola para vestir por quinze minutos uma camiseta contra o aborto de fetos anencefalicos ・mas so o fato de imaginar-se com os bracos a mostra a fez jejuar por tres dias. Um dia, quando ela estava no banheiro ・com a porta destrancada, obvio ・aproveitando a acustica para praticar canto gregoriano, o pai sorrateiramente flagrou, debaixo do travesseiro dela, em capa dura, o vade-mecum “Misoginia: Mulher Tambem Pode!”. : M
・Olha ・disse a mae, tentando manter a serenidade quando finalmente foi conversar com o marido na base do “o que mais falta tentar?” ・Fiquei sabendo de um tratamento heterodoxo ai que uma amiga utilizou na filha e me garantiu que funcionou. nou
・Sim, sim ・falou o pai, ja quase desalentado ・ que alguma coisa hetero funcione ou entao vamos empurrar uma namorada nela! ela
A mae, fazendo muxoxo do tipo “vou fingir que nao entendi”, pegou o telefone e ligou para a amiga. Dois dias depois a campainha tocava. Abriram a porta e deram com um padre.
・M-mas… ・o pai cochichou, entre os dentes. ・Logo um…?
ndo
O reverendo, com o semblante meio injetado e cabelo desfiado jogado para a frente, feito uma cortina branca e rala cobrindo a vista, olhou para um lado, para o outro, para cima e ai grunhiu algo que tanto podia ser “E la que a menina esta?” como “Caraca, alguem tem troco pro taxi?” ・e antes que os pais falassem qualquer coisa ele se encaminhou a escada e subiu. O pai ia seguindo atras mas a mae, apertando-lhe o braco, sussurrou “Deixa”.
La em cima a menina, desconfiada, viu o reverendo se desfazer do casaco e do chapeu e sacar um volume onde na capa tinha escrito “Rito de Inorcismo”. Em seguida ele fechou os olhos e comecou a recitar alguma coisa. Ela tirou o fone do ouvido, fez o maior ar blase e falou:
・Latim vulgar? Hm. Daqui a pouco comeca a degenerar pro, irk, portugues, e dai pra resultar em homilias com concessoes ao populacho e… ;
・Eu te chamei na conversa? ・cortou o padre, seco. ・Isso e entre mim e ele. .
O padre entao mostrou: no canto do quarto, no meio de uma explosao de fumaca verde, e atendendo ao chamado, tinha aparecido a entidade meio maltrapilha e com a cara de primo mais mirrado do Ze Dumont.
・Anamelech ・disse o reverendo, finalmente erguendo a voz e apontando a menina: ・entra nesse corpo que te pertence!
enin
・Um momento, eu… ・ia dizendo a garota, mas o reverendo, olhando nos olhos dela, a interpelou: r
・Voce tem pelo menos troco pra pagar meu taxi, queridinha? Tem? Nao, ne? Entao fica quieta! ・e, voltando-se a entidade: ・Possui este corpo! Eu te ordeno! Agora! Ago
・Ah ・insistiu o tal Anamelech. ・Isso nao vai dar certo. Periga e a mocinha ai acabar me convertendo. Melhor deixar pra la. lテ。
・Eu te perguntei alguma coisa, filho da puta?・bradou o reverendo, encantoando ainda mais a entidade. ・Levanta tua auto-estima, bundao! Entra agora no corpo dessa criatura antes que ela se filie a Opus Dei e chegue solteira e virgem a terceira idade! Salva esta vitima indefesa! Sou eu que ordeno, seu bosta! Faz ela levitar, virar a cabeca, cantar Nina Simone! Faz alguma coisa!!! ois
Os pais, la embaixo, acompanhavam a enxurrada de xingamentos ・e em dado momento comecaram a se perguntar se a coisa iria surtir efeito. “Os vizinhos podem reclamar”, alertou o pai. A mae entao consentiu que ele subisse, e ele foi ate o quarto. Chegou a porta no momento em que os palavroes tinham acabado de cessar. Entao, intrigado, abriu devagarinho e deparou com a cena: a entidade encolhida num canto, choramingando, com a menina lhe oferecendo um copo d´agua e falando “Pronto, pronto, nao e nada”. O padre, bufando de cansaco e tirando a cabeleira dos olhos, virou-se ao pai e cochichou, apontando a menina com o polegar: “Olhai, ja ta dando assistencia pra pobre. Nao deixa de ser um bom comeco, hm?” m
La embaixo bateram na porta e a mae, preocupada, achando que seria algum vizinho reclamando, foi abrir. Era o taxista, querendo receber.
Postado por Nelson Moraes às16:00 | Esquetes
Sexta, 06 de Janeiro de 2006
LOVE AND DEATH
Era uma vez um continho muito, muito, mas muito raquitico, que nasceu prematuro, sem condicoes ainda de ser divulgado nem lido ・ai o autor colocou o continho numa incubadora. Todos os dias ele vinha visitar o continho, coitadinho, tao mirradinho, de arcabouco fragil, situacoes incipientes, dialogos padecendo de disritmia e falta de folego ・tanto que tinha no narizinho um tubo para respiracao artificial. O autor enfiava a mao na incubadora pela abertura circular e, com uma luva, tocava nos dedinhos do conto, que de tao pequenininhos mal conseguiam se fechar na ponta do polegar dele. O autor sussurrava, quase cantando, “Um dia voce vai participar da antologia do seculo e nos vamos rir disso tudo”. E os dedinhos do continho meio que davam uma apertadinha no polegar do autor. Mas la pelo segundo ou terceiro dia, enquanto pajeava o continho, o autor viu as enfermeiras rindo e cochichando, atras do vidro da sala da incubadora. Entao ele, que alem de arrebatado era um autor suscetivel a criticas, foi ver que tititi era aquele ・e uma das enfermeiras nao demorou a soltar que corria por ai que aquele continho, sabe, nao era dele. Mas ・ela emendou ・era so boato, imagina. Falou isso e foi embora. O autor sentiu o chao faltando, a garganta entalada, e depois de uns minutos voltou devagar ate a incubadora. A medida que o sangue lhe subia ao rosto ele observava o continho mirradinho, de olhinho fechado, dormindo. Esperou ate o sangue descer de novo, ate ficar tarde, ate nao ter ninguem por perto ・ai foi a maquina de oxigenio da incubadora, abaixou a cabeca e desligou. Apagou a luz da sala, pegou o casaco e so entao se lembrou de que tinha guardado no bolso uma roupagenzinha para o continho, comprada na vespera, para ser colocada assim que pudessem ir para casa. Uma roupagenzinha pequenininha, fofinha, do tamanhinho exato do conto e que revestiria a criaturinha de um estilo e de um acabamento que fariam as visitas dizerem “e a sua cara”. O autor olhou para tras, sentiu doer-lhe so um pouquinho o esticado silencio da maquina de oxigenio, foi ate a lata de lixo, jogou a roupagenzinha e saiu do hospital. La fora a brisa noturna carregada de motes para historias de amor e morte soprava, leve e um tantinho assim umida.a hist
Postado por Nelson Moraes às 11:04 | Literatices
Segunda, 02 de Janeiro de 2006
PARADAS MISTICAS PARA 2006, POR PAI ALMIRANTE DE OXOSSI
Seu Futuro na Bola de Cristal Liquido ・para que perder tempo com resolucoes de Ano Novo, se voce pode ver 2006 inteirinho numa bola de cristal liquido de altissima resolucao ・que no fim das contas e a unica resolucao que conta? So mostro o que interessa: sucesso, realizacao profissional, dinheiro. No caso, meu sucesso ao prever seu futuro, minha realizacao profissional ao firmar-me como vidente sindicalizado e o dinheiro que receberei adiantado pela consulta. Sigilo absoluto. Ou relativo, se o pagamento for no cartao. to
Seu Passado nas Cartas ・traga as cartas que voce recebeu da namorada, do tio, da irma, do patrao, do cartorio de protestos. Uma lida rapida nelas e conto todo o seu passado com margem minima de erro. Se houver erro na margem e porque quem escreveu as cartas nao entende picas de tabulacao. Cobro adicional de 15% a cada vez que eu ler “estou afim de…” ou “derrepente”. Discricao garantida para cartas intimas da namorada. Nao conto nem para voce.
Observo Buzios e Adivinho Tudo ・basta enviar antecipadamente o correspondente a uma viagem de ida e volta a Buzios (R$ 2.200,00 com escala no Galeao) que eu vou la, observo direitinho as paradas, a vida noturna, os pontos com mais mulher e os bacanais nos iates. Dai adivinharei onde posso me dar bem em 2006 e, claro, partirei para pesquisa de campo. Pelo modico adicional de 20% prometo contar tudinho a voce quando eu voltar. t
I-Ching pela Internet ・garanto total rapidez: voce joga seu I-Ching, leva quarenta minutos para ler aquela porra nas varetinhas, mais trinta fazendo as combinacoes de hexagramas, outros vinte lendo os hexagramas mutantes ・ai me manda um e-mail contando o que deu. Nao levarei menos que dois segundos para descobrir que interpretar “As asas da mariposa fazem ondular a superficie do lago” me da um baita prejuizo se eu cobrar por palavra. Precisarei rever minha tabela. a
Runas Africanas ・para quem nao acredita em miscigenacao adivinhatoria, esta veio para emplacar em 2006. Seguindo estritamente os preceitos do oraculo viking-ioruba Mama Africaner, a rainha da cocada branca, oferecemos a preco de custo o kit do-it-yourself: um jogo de runas, uma garrafa de aquavit, frango e farofa. Basta se concentrar, jogar as runas, deixar que elas que sao brancas que se entendam e encher a cara. E a melhor maneira de voce esquecer as merdas que fez em 2005.
Postado por Nelson Moraes às 10:08 | Frilas
Segunda, 26 de Dezembro de 2005
TALIA, A MUSA
Ai diz que o escritor ligou o computador, acessou o Google Earth, viu mais ou menos onde era a Grecia, virou-se para la e clamou ao Olimpo que enviasse uma musa, porque precisava comecar o livro logo. Nao deu cinco minutos tocaram a campainha. Era o entregador de pizza. O escritor viu que faltava oregano na calabresa e mandou de volta. Dai a meia hora tocaram de novo a campainha e entrou a moca com a cara da Jennifer Connely, usando uma tunica fininha de algodao, coroa de hera, sandalias prateadas e carregando aquela mascara risonha.
・Uau ・disse o escritor. ・Quando pedi pra capricharem mais no tempero nao pensei que fossem levar ao pe da letra. a.<
・Otimo ・disse a moca. ・Vejo que ja comecamos com uma tipica comedia de erros. Bom timing. Mas nao, nao sou da pizzaria. Vim atender a seu chamado. cha
・Voce e…? ・perguntou o escritor, pensando se seria um bonus de Natal da agencia de acompanhantes. s.
・Nao sou a Jessica nem a Dayanne que voce pensou ai, tambem, nao, darling. Sou a Talia. i
・Talia? ・disse o escritor, tentando se lembrar. ・Mas Talia nao e… mm… a musa da Comedia? ゥdi
・Ah, finalmente. Achei que eu estivesse falando grego. Ou quando muito dialeto jonico. ・E a moca colocou a mascara para dar um risinho baixo. .
O escritor sentou-se ao computador, mais contrariado que surpreso. Ai falou:
・Mas, das nove musas, por que logo a da Comedia?
・Zeus escreve certo por linhas tortas, dear ・e a moca piscou por detras dos olhinhos da mascara. .<
・Ta, entendi a piada ・disse o escritor. ・Mas ainda assim: meu negocio e drama! Minha especialidade sao historias secas, naturalistas. Densas. Viscerais. Um soco no estomago do leitor, entende? ten
・Entao me considere uma sparring que veio melhorar seu upper, benzinho. Soco no estomago? Ew. <
O escritor olhou para cima, como se clamasse a alguma entidade:
・Mas eu sempre quis ser reconhecido como autor serio! Nao atravessei o Dostoievski inteirinho e treinei aqueles maneirismos pra isso! ・e, erguendo as maos ao ceu: ・Por que? qu
・O Olimpo e pra la, darling ・e a moca apontou a janela a esquerda. a.
・Recuso a pecha de piadista ・prosseguiu o escritor, fingindo que nao tinha ouvido. ・Nao quero ser o arauto da leviandade. O literato da irresponsabilidade. Fazer rir e demerito! O mote, o trocadilho, o joguinho de palavras, os dialogos bate-e-vira com escada pra piada e pro punchline? Isso denigre meu talento! ent
・Benzinho, eu sou mandada da Grecia ate essa quitinete esculhambada, mal decorada, com a tampa do vaso levantada, de frente pra dois terrenos baldios e voce reclama de demerito? Ja parou pra pensar na vista que temos la do Olimpo? m
O escritor voltou-se a tela do computador:
・Certo. Me desculpe. Nao pretendi ser rispido. Er… Podemos ao menos tentar uma comedia dramatica? Um romance onde o humor aos poucos va dando lugar a denuncia social, e… 3
・Uh, sweetie, voce passou bem pelas primeiras fases: negacao, revolta e agora a negociacao. Depois vem a depressao (nada que esse meio Jack Daniel’s ai nao resolva) e finalmente a aceitacao. Portanto, maozinha no teclado e manda uma comedia rasgada! i
Nisso tocaram a campainha. Era o entregador de pizza de novo. A musa atendeu, viu que ele era a cara do Benicio Del Toro de banho tomado, desceu a mascara e abriu um sorriso:
・Hm, a classica premissa comica. Ulala, como musa nao posso deixar passar ・Virou-se entao ao desalentado escritor e: ・Vai trabalhando ai, ta, benzinho? Tenho umas coisas, ha, protocolares a tratar agora. Liturgia do cargo. o c
・Mas… ・balbuciou o escritor. ・E eu fico aqui sozinho? O que eu escrevo? O que eu faco? ?ranking, ue. Aproveita que ele anda meio desnorteado e pouco inspirado por conta do fracasso do PT e o: vai fundo!n
Postado por Nelson Moraes às <11:00 | Esquetes
Sábado, 17 de Dezembro de 2005
PENSATA ALMIRANTICA DE NATAL
Natal e epoca de reflexao. Pois vendo meu reflexao no espelho de aumento de Millicent e que pude conferir que minha fisionomia revela realmente tracos de macheza, nobreza, charme e, principalmente, que aquela cicatriz que ganhei tentando fazer a barba com um trim cada vez mais se passa por navalhada em briga de taberna em Nantuckett. Move over, George Clooney.
Natal e epoca de olhar para dentro de si. Pois reparando na endoscopia que fiz anteontem e que me toquei o quanto o rum de terceira e os pistaches sabor picanha ao alho e oleo tem feito mal ao meu sistema digestivo. Esta tudo uma merda ・e olha que nem vi ainda a colonoscopia. i
Natal e epoca de balanco. Pois gracas ao empenho de meu terceiro-piloto e cafifa Flask consegui, a preco de banana, trazer o balanco e o rebolado daquela famosa loira dancarina de axe ate esta cabine de comando, noite passada. E falei preco de banana literalmente: ela quis receber in natura. Hipoglos aqui na banana por pelo menos uns tres dias. Dois.
Natal e tempo de pensar em quem ja se foi. Pois pensando em todos os que foram a puta que pariu por terem se metido comigo em incontaveis batalhas navais a soldo da Invencivel Armada e que chego a conclusao de que melhor do que vencer inimigos arrogantes, babacas, boquirrotos e aviadados e vencer inimigos invenciveis. Ulala.
Sim, sim, eu sei que estou um tanto romantico hoje. E o Christmas
Blues, e esse luar, e esse conhaque de quinta. E Flask: a bananuda deixou telefone?
Postado por Nelson Moraesàs19:14 | Ensaios
Terça, 13 de Dezembro de 2005
AS PASTORINHAS DAS PERGUNTAS RETORICAS
Existe uma esfera eterea onde as perguntas retoricas sao respondidas, sabe. Ela e composta por um diafano ambiente parnasiano, com um monte de pastorinhas com asas de tule nas costas carregando cestas lotadas de geranios e dando pulinhos por estradas bastante parecidas com as do cenario de “O Magico de Oz”, presenteando-se umas as outras com bengalinhas doces e coloridas. De repente uma pastorinha para e diz “Enfia no cu”, mas nao pinta qualquer mal-estar ・sempre acontece isso quando um marido aqui na Terra pergunta a mulher o que fazer com a garrafa de Pepsi dois litros que nao coube na geladeira lotada. De vez em quando uma pastorinha de trancinha ate o joelho, fazendo “ti-ru-li-ru”, tenta colocar um geranio no cabelinho da companheira, e entao esta dispara, rindo: “Na bunda!” ・e sempre assim quando alguem pergunta aqui, ao abrir o jornal, “Onde a gente tava com a cabeca quando elegeu esse povo?” Ontem mesmo uma pastorinha, cheirando um geranio e contando as petalas, cantou (e encantou todo o Parnaso) com voz maviosa: “No-ul-timo-lu-gar-do-ran-king-da-U-nes-cooo”, porque um comentarista de televisao perguntou aonde a gente ia parar desse jeito. As vezes a coisa se inverte. Vai que uma pastorinha mais inexperiente pergunta a alguma veterana: “De onde eu vim, tia?” ・e ai alguma manicure daqui chamada Marcilene para de lixar a unha da cliente e comenta, com olhos um pouquinho injetados: “De uma cabeca energumena e desocupada!”. Mas as madames riem e entendem esses arroubos de classe baixa ・mesmo porque no fim das contas nao e todo dia que isso acontece, sabe.m da
Postado por Nelson Moraes às 11:26 | Fabulas
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